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“Universidade
investiga o método de Kardec
Por Eliana Haddad
Uma defesa de mestrado realizada em 25
de fevereiro pelo historiador Marcelo Gulão Pimentel levou para o Programa de
Pós-Graduação em Saúde Brasileira da Universidade Federal de Juiz de Fora, MG,
um tema de interesse para espíritas e não espíritas, ao apresentar na academia
o método utilizado por Allan Kardec para a investigação dos fenômenos
mediúnicos.
A questão é de suma importância, porque
toca em um dos pontos mais debatidos pelos céticos e pelos cientistas
materialistas que não consideram o espiritismo ciência, muitas vezes pela falta
de estudo e entendimento do método que Kardec buscou desenvolver para obter
informações úteis e confiáveis sobre a dimensão espiritual do universo.
A tese teve orientação do professor dr.
Alexander Moreira-Almeida e coorientação do professor dr. Klaus Chaves Alberto,
respectivamente, coordenador geral e coordenador da área de ciências humanas do
Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde, que funciona na mesma
universidade desde 2006. Participaram da banca examinadora o professor dr.
Silvio Seno Chibeni, da Universidade Estadual de Campinas, e o professor dr.
Gustavo Arja Castañon, da Universidade Federal de Juiz de Fora.
Marcelo Pimentel concentrou sua pesquisa
na leitura e análise de toda obra publicada por Kardec: seus livros e os doze
volumes da Revue Spirite: Journal d'Études Psychologiques. Foram também
obtidos e analisados documentos originais inéditos
de Kardec, em viagem de pesquisa por um mês na França com o
financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais.
Como você analisa a importância de Kardec
como pesquisador?
Allan Kardec foi importante, porque desenvolveu pesquisas pioneiras sobre os
fenômenos mediúnicos. Ele propôs uma abordagem abrangente das manifestações
mediúnicas que ocorriam na metade do século 19. Kardec buscou analisar as
principais teorias a respeito do tema e concluiu que a hipótese da existência
dos espíritos era aquela que melhor explicava o conjunto dos fenômenos
observados.
Em que o método de Kardec se diferencia?
Kardec foi além dos demais pesquisadores, utilizando os médiuns como modo de
acesso direto a dados empíricos a respeito do mundo espiritual. Para ele, o
mundo relatado pelos espíritos não era metafísico, e sim uma parte do mundo
natural ainda pouco explorado. Em diversas passagens da obra de Kardec podemos
vê-lo comparando o mundo espiritual com o mundo microscópio. Algumas vezes ele
fazia a analogia do médium como um microscópio do mundo espiritual. Kardec
também se diferenciava pela busca ativa por informações a respeito dos
princípios que integraram o espiritismo. Ele procurava ampliar sua base de
dados empíricos utilizando diversos médiuns, muitas vezes desconhecidos uns dos
outros. Enfatizava a descrição e a interpretação do conteúdo das mensagens obtidas
durante o transe mediúnico, comparando semelhanças e diferenças entre elas em
busca de informações úteis que pudessem integrar sua teoria. Kardec dava uma
grande ênfase na análise do conteúdo das informações, sendo menos relevante a
autoria das mensagens. No decorrer de sua pesquisa, contou com um número cada
vez maior de correspondentes que foi de grande importância para a multiplicação
dos relatos mediúnicos com os quais ele criou, desenvolveu e reformulou os seus
princípios acerca do mundo espiritual. A Revista Espírita foi um espaço
destacado de debates com os seus correspondentes, contribuindo para o
amadurecimento das ideias a respeito do espiritismo. Pesquisador ativo, Kardec
também se utilizava de casos históricos acerca dos fenômenos mediúnicos e
também de pesquisas de campo, visitando médiuns e locais onde as manifestações
espirituais se davam. Do conjunto de informações obtidas, ele desenvolveu a
teoria espírita.
Quais as contribuições que uma melhor
compreensão da metodologia do espiritismo pode trazer à ciência?
Pode contribuir para o debate acadêmico acerca dos fenômenos anômalos que
envolvem experiências conhecidas como espirituais, psíquicas ou mediúnicas.
Investigações históricas não só do método de Allan Kardec, mas também de outros
pesquisadores que conduziram pesquisas sobre o tema poderiam retomar teorias e
metodologias fomentadoras de novas abordagens empíricas, bem como tornar mais
bem conhecida uma longa tradição de investigações no campo da mediunidade. No
nosso grupo temos um doutorando, Alexandre Sech Júnior, que está investigando
outro pioneiro, William James.
Há um crescente interesse no meio
acadêmico sobre as relações entre espiritualidade e ciência. Por quê?
Cada vez mais tem surgido em diversas
partes do mundo estudos sobre os impactos positivos da espiritualidade na saúde
do ser humano e as suas implicações em diversos ramos da sociedade.
Em sua dissertação, você defende o
caráter progressivo da pesquisa de Kardec. Por que isso aconteceu?
Kardec via o espiritismo como uma ciência, portanto passível de ser aprimorada
e modificada. Em um primeiro momento, contava com um número restrito de médiuns
(cerca de dez), contudo, à medida que esse número foi ampliado, devido à
repercussão de sua obra em diversas regiões do mundo, ele passou a recolher uma
base maior de dados, o que permitiu o aprofundamento de aspectos de sua teoria.
É o que se pode perceber com a leitura do 'Ensaio teórico das sensações dos
espíritos', publicado na segunda edição de O livro dos espíritos.
O ensaio é resultado de uma pesquisa que
pode ser acompanhada desde a primeira edição de O livro dos espíritos, passando
pelas edições da Revista Espírita de 1858 até o mês de dezembro, quando Kardec
publica o artigo 'Sensações dos espíritos' em que apresenta suas primeiras
conclusões sobre o tema. Este artigo ainda recebe algumas modificações baseadas
na análise das informações dadas pelos médiuns entre 1859 e 1860 até a sua
publicação na segunda edição de O livro dos espíritos, em 1860.
Você acredita ser necessário retomar os
estudos sobre os aspectos históricos e filosóficos das pesquisas científicas
sobre as relações entre espiritualidade e saúde?
Sim. Os estudos atuais nesse campo têm tido uma grande repercussão no meio
acadêmico e na sociedade em geral. Contudo, pouco se sabe sobre a história
dessas pesquisas. Estudos que busquem investigar suas tradições podem
fortalecer essa área academicamente e fomentar novos trabalhos.
E na área da metodologia científica? Isso
poderia provocar uma revisão de teorias?
Como historiador, é difícil medir o impacto desse estudo na área de metodologia
científica. Em seus aspectos históricos, acredito que sim. Apesar da
repercussão que o espiritismo teve entre pesquisadores renomados da Europa na
segunda metade do século 19, e na história da saúde mental no Brasil, o método
de Allan Kardec é pouco conhecido. Acredito que com mais discussões e estudos
acadêmicos sobre Kardec e seu método de investigação a academia possa inseri-lo
como um dos pioneiros das pesquisas psíquicas, em especial, da mediunidade. O
espiritismo não foi suficientemente explorado em seu aspecto metodológico de
investigação. Além disso, Kardec não buscou apresentar seus estudos sobre
espiritismo no ambiente acadêmico.
Por que Kardec afirmava que o espiritismo não
poderia ser enquadrado no mesmo ramo das ciências tradicionais, como a química
e a física, mas sim como uma nova ciência?
Kardec oferece diferentes definições do espiritismo enquanto ciência ao longo
de sua obra. Uma das mais citadas está na obra O que é o espiritismo? em
que ele definiu o espiritismo como "uma ciência que trata da natureza,
origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo
corporal". Nos parece que a principal razão para ele não enquadrar o
espiritismo entre as ciências tradicionais diz respeito à delimitação de seu
objeto de estudo. Enquanto a física e a química têm como base a investigação da
matéria, o espiritismo investiga o ser pensante, o espírito. Além disso, para
Kardec, o método quantitativo e os experimentos laboratoriais praticados por
essas modalidades científicas não seriam adequadas para a investigação dos
fenômenos inteligentes gerados pelo espírito.
O espiritismo continua um 'grande
desconhecido', como já observara J. Herculano Pires?
Acredito que falta uma leitura mais criteriosa e aprofundada da obra de Allan
Kardec, notadamente em seu aspecto metodológico. Principalmente o conhecimento
que pode ser obtido a partir da leitura da Revista
Espírita.
Você defendeu que a análise do conteúdo da
Revista Espírita pode revelar importantes aspectos da construção teórica e
metodológica do espiritismo. Pode dar um exemplo?
Um bom exemplo é o da evolução do entendimento sobre a possessão. No começo,
Kardec nega a possibilidade da possessão, como está expresso em O livro dos
médiuns (1861). Contudo, no livro A gênese de 1868 ele admitiu a existência da
possessão para alguns casos de obsessão. O processo de convencimento de Kardec
só pode ser observado na Revista Espírita. Em março de 1862, ele tomou
conhecimento de uma série de fenômenos mediúnicos chamados pela imprensa de 'Os
possessos de Morzine'. Durante um ano, Kardec publicou uma ampla pesquisa sobre
o evento, totalizando seis artigos, onde afirmava ter evocado espíritos por
diferentes médiuns, promovendo entrevistas sobre o tema; promoveu estudos do
tema com os membros da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas; analisou
casos semelhantes registrados na história; comparou com fenômenos semelhantes
enviados por seus correspondentes de diferentes lugares; analisou artigos
publicados pela imprensa sobre a possessão em Morzine; leu diversos relatórios
oficiais e acadêmicos sobre a epidemia de possessão; observou casos de
possessão em várias localidades e realizou uma viagem de campo a Morzine para
avaliar os casos de possessão. Por fim, os dados analisados contribuíram para
que ele, em dezembro de 1863, se convencesse da possibilidade da possessão.
O que você descobriu de novo e como esse
material foi utilizado em seu trabalho?
Durante o mês que estivemos na França, tivemos a oportunidade de conversar com
diversos pesquisadores acadêmicos, como Marion Aubrée, Guillaume Cuchet e
Renaud Evrárd, bem como pesquisadores e estudiosos da história do espiritismo,
como Charles Kempf, Jérémie Philippe e Pierre Etienne. Visitamos diversos
arquivos públicos e bibliotecas francesas em busca de fontes históricas sobre a
vida de Allan Kardec e sobre o espiritismo entre 1857 e 1869. Com a valiosa
ajuda de Charles Kempf, visitamos os arquivos da Union Spirite Française et
Francophone em Tours, na França, e conseguimos coletar diversas cartas,
diplomas e outros documentos que serviram de fontes de informação para a
conhecermos melhor a vida de Hippolyte Rivail, onde foi possível constatar a
sua vasta erudição como professor, escritor e membro de diversas sociedades
científicas. Também conseguimos acesso a algumas cartas do Kardec aparentemente
nunca publicadas. Ainda estamos analisando o conteúdo dessas cartas e
pretendemos apresentá-las juntamente com a sua análise em um trabalho futuro.
Qual o papel de Kardec, na vinda do
Consolador Prometido, com relação à equipe do Espírito da Verdade?
Kardec foi muito mais que um compilador ou secretário dos espíritos na
constituição do espiritismo. Ele foi um pesquisador ativo em busca das informações
que permitiram que ele constituísse a sua obra. Kardec afirmava que o
espiritismo seria o trabalho de uma dupla revelação: a divina ou espiritual,
por ter sido a partir das informações dos espíritos que ele teria realizado sua
obra, mas também pela revelação científica, onde o seu papel como pesquisador
foi fundamental na elaboração dos princípios que compõem o espiritismo.
ENDEREÇO
ELETRÔNICO CONSULTADO